Aleatoriedade #3: Minha opinião de bosta sobre MERITOCRACIA

Eu sinceramente não entendo esse auê acerca da meritocracia. Parece que todo mundo se contorce ao ouvir essa palavra tanto quanto eu me contorço quando me chamam de reaça, de direita, de conservador (politicamente, sou liberal). Enfim, meritocracia é algo tão simples que eu nem deveria ter escrito um textão do tamanho do mundo há uns tempos atrás, então resolvi reescrever com foco e, se possível, simplicidade. SPOILER: Falhei e o texto ficou maior que o anterior, mas o foco ficou muito melhor.

O dicionário explica isso tudo facilmente. Se vocês que estão lendo preferem dar outro sentido à palavra, problema de vocês. Mas vamos resolver isso de maneira fácil, rápida e indolor. Começaremos decompondo a palavra. Meritocracia = mérito + cracia, ok? Qualquer um que já tenha estudado português sabe que -cracia indica governo, doutrina. Então, meritocracia seria algo como “governo do mérito”.

E o que diabos é mérito? Vejamos…

Mérito. Aquilo que faz com que uma pessoa seja digna de elogio, de recompensa; merecimento. Qualidade apreciável de uma coisa ou de uma pessoa.

Então, segundo o dicionário, Mérito é aquilo que seja digno de recompensa. Basicamente, significaria atingir um objetivo qualquer. Afinal, ao atingir um objetivo, haverá o mérito à pessoa pelo objetivo alcançado. Simples, ok? Então poderíamos inferir que meritocracia seria o “governo” daqueles que sejam dignos de recompensa.

Pareceu sem sentido, não é? Então vamos ao dicionário novamente refinar as palavras.

Meritocracia. Predominância dos que possuem méritos; predomínio das pessoas que são mais competentes, eficientes, trabalhadoras ou superiores intelectualmente (...). Modo de seleção cujos preceitos se baseiam nos méritos pessoais daqueles que participam: conseguiu o trabalho por meritocracia. Método que consiste na atribuição de recompensa aos que possuem méritos: foi eleito o funcionário do mês por meritocracia.

Ah. Predominância dos que possuem méritos. Predomínio das pessoas que são mais competentes, eficientes, trabalhadoras ou superiores intelectualmente. Modo de seleção baseado nos méritos pessoais. Ok. Aqui vai ficar um pouco extenso, tá? Vamos lá.

A galera sempre gosta de citar meritocracia usando o exemplo do “ponto de partida” e sempre com as variáveis “dinheiro” e “esforço”. Ah, fulano vem de uma família rica e sicrano de uma família pobre, etc. Então o que é pobre precisou fazer mais esforço que o rico, e isso aparentemente é injusto. Bem, no meu post passado sobre meritocracia, usei exemplo da Fórmula 1. Sou muito fã de automobilismo e sei que a F1, desde SEMPRE, possui grande discrepância entre as equipes. Sempre haviam os com mais grana e com menos grana. Mas isso nunca significou vitória certa. Vamos aos exemplos.

O exemplo mais recente de que grana não significa nada é a equipe Toyota. Eles estiveram na F1 de 2002 a 2009. Olha só, equipe de montadora (como Ferrari, Renault, Mercedes, porque são montadoras de carros de rua — e até de luxo), tem grana até não poder mais. Adivinha só? Não ganharam nem mesmo uma corrida. Fizeram 3 pole positions em 8 anos. O melhor que fizeram como construtores foi um 4º lugar em 2005. Só. OITO ANOS. Eu poderia também falar brevemente da Ferrari, que é A FERRARI. Eles não são supercampeões o tempo todo. Seu último título foi em 2008. Eles tiveram vários jejuns de títulos — como um de 1979 a 2000 sem pilotos campeões. Ou seja, nem sempre grana significa vitória.

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Ryan Briscoe, piloto de testes da Toyota Racing, 2004. Foto: TheJudge13

Quem dominou recentemente a categoria até 2016 foi a Mercedes. Eles correram lá nos anos 50, mas saíram e ficaram só como fornecedores de motores e peças. Retornaram como equipe apenas em 2010. Até 2013 foram uma equipe bacana, mas só. Porém, de 2014 em diante, com um regulamento novo de motor, fizeram um projeto perfeito e vem engolindo a concorrência. Em 2014 mesmo tiveram uma dominância digna de McLaren Mp4/4 (o carro de Senna e Prost em 1988, com mais de 80% das vitórias). Tem grana? Tem bastante. Mas ainda falta um último exemplo.

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Lewis Hamilton, campeão de 2014 e 2015 pela Mercedes. Foto: Sky Sports

Sabe a Williams? É uma das equipes mais conhecidas do circuito. Foi criada na Inglaterra lá em 77. Em três anos de existência foi campeã. Em 18 anos de Fórmula 1, conseguiram “apenas” 16 títulos — 9 de construtores e 7 de pilotos. É bem verdade que o último deles veio em lá 1997, mas é preciso dizer que eles NUNCA foram uma equipe rica. Na verdade, eles são um dos últimos times da “era romântica” da Fórmula 1: os Garagistas. “Ah, mas Fórmula 1 é um esporte caro, precisa ter dinheiro” É lógico que sim, mas quis dizer que eles nunca tiveram um orçamento alto comparado com os outros times. Eles foram 3º lugar em 2014 com um um terço do orçamento da campeã Mercedes no mesmo ano — depois do fiasco do time inglês em 2013, foi excelente.

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Nelson Piquet, campeão de 1987 pela equipe Williams. Foto: Projeto Motor

Então perceba que talvez seja mais fácil as equipes ricas vencerem. Porém nem sempre vencem, a exemplo de Toyota e Ferrari, ou outras tantas. No entanto, os times garagistas sempre estarão por perto — a Sauber é outra com orçamento limitadíssimo mas que ainda figura no campeonato. E as equipes do fundão? Manor, Haas, Renault, a própria Sauber em 2016 estão lá atrás. A Renault é cheia da grana. A Haas tem parceria com a Dallara e a Manor com a Mercedes. A Sauber não tem parcerias majoritárias dentro do mundo automobilístico, mas recentemente foi comprada por uma gigante suíça e talvez as coisas financeiras melhorem em breve.

O que quero dizer com tudo isso? Quero dizer que não há nenhum motivo para torcer o nariz quando se fala de meritocracia. Porque, se mérito é receber os louros por atingir um objetivo, então meritocracia nada mais é do que um sistema (?) em que todos receberão os louros quando atingirem seus objetivos. Gente, presta atenção: a vida é assim. Sempre. Pense comigo, como receber o mérito na prova da escola? Estudando e aprendendo? Infelizmente não. Pra tirar nota boa, só precisa acertar as questões. Então se você colar (as respostas certas, no caso) e não ser pego vai tirar nota boa do mesmo jeito. Não quero incentivar ninguém a fazer isso, muito pelo contrário, mas na verdade isso mostra que pode haver falhas no método de seleção!

É por isso que a meritocracia tem que ser pensada num contexto onde há regras, e elas são cumpridas (e por isso que a política brasileira vai de mal a pior, já que parece fácil burlar e contornar leis e regras). As regras na escola, sem bem executadas, excluirão quem cola e premiarão quem estuda, mas se as regras são desrespeitadas sem que haja coibição ou correção dos infratores, vira um caos. Não haverá mérito certo! Aqui, a meritocracia não se aplica, a conversa não cabe mesmo! E se tem que ser certo, vamos acertas as coisas no próximo exemplo.

Ora, como receber o mérito na Fórmula 1? Andar e chegar na frente, respeitando as regras. Simples. Em outros anos, pilotos e equipes foram desclassificados por usarem de métodos ilegais para andar na frente. Seja desclassificação de uma volta (por cortar caminho, por exemplo) até de uma temporada de um ano inteiro (a Tyrrell conseguiu isso em 1994; Schumacher perdeu sua classificação de 1997; et al). Por mais que eu como fã tenha raiva de algumas coisas na F1, o regulamento é respeitado lá no certame. E se uma equipe discordar das regras, sejam elas justas ou não, ela tem o direito de se ausentar da competição (existem diversas outras competições de automobilismo; falei da Mercedes, né? Ela correu em muitos outros lugares por décadas, até criar uma divisão pra voltar à F1).

Schumacher colide (intencionalmente) com Villeneuve. Isso gerou sua desclassificação do campeonato de 1997, embora manteve os pontos para o campeonato de construtores. Se ele não tivesse batido e até Frentzen o passasse, deixando Schumi em 3º, ele ainda seria campeão.

Então a parte das regras está resolvida aqui, vamos aos quesitos “grana” e “esforço”. Aqui eu tenho certeza que os engenheiros na Mercedes fizeram um baita esforço pra se manter nas regras e produzir esse carro de outro mundo que eles tem desde 2014, mas eles poderiam ter feito quase nenhum esforço enquanto a Manor (lanterninha) fez um esforço sobre-humano pra ainda assim fazer uma bosta de carro. Oh, mas a Manor não tem grana. A Mercedes tem. E daí?

Qual o problema de um ter mais grana que o outro? Qual o problema (apenas por exemplo) se o teu avô foi um homem trabalhador, assim como teu pai era eficiente e eficaz naquilo que fazia, e deixou uma boa condição pra você viver, ao contrário do meu avô e meu pai que viveram às custas dos outros e me fizeram nascer na merda? Você é um privilegiado, seja feliz, aproveite, use e abuse dos privilégios! Qual o problema? Você (ou teu pai, ou teu avô) roubou alguma coisa pra conseguir os privilégios? Usar de seus privilégios vai interferir na liberdade de outra pessoa? Se for, aí sim você estará errado. Isso não será privilégio, será canalhice mesmo. Será “contra as regras” e não haverá mérito, e sim roubo!

Lembre-se do que eu já falei: na F1, outras equipes usaram de seus privilégios financeiros e não venceram, enquanto outras “subdesenvolvidas” subiram na vida e venceram títulos e mais títulos, além dos times que tinham uma aparente “vantagem” que na verdade era infração às regras!

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Exemplo de última hora: o povo gosta de comparar salário de professor e de jogador de futebol. Até citam Eike Batista (que roubou o meu e o seu dinheiro via BNDES e agora vai ver o sol nascer quadrado): pode procurar “meritocracia” na busca de imagens do Google. Pois bem, olha só que ironia! No chamado “país do futebol”, onde se mata e morre por times, se gasta uma grana preta pra assistir jogos e todos querem ver o Neymar, mas na hora de estudar faz corpo mole, diz que “estudar é chato” e desrespeita professor na sala de aula! Mas, adivinha só, na cabeça de quem faz ironia com defensor de meritocracia, os professores de escola recebem pouco porque se esforçaram pouco! Que nada… a demanda pede mais futebol e menos escola, infelizmente. Estão mais dispostos a investir em outras coisas e não em educação. Falo com propriedade: moro desde sempre em periferia, e cansei de ver adolescentes tendo de sair da escola porque tinham que trabalhar pra sustentar a família. A escola não sustenta, aparentemente. :/

Mas não acaba aí: quer ser professor e ganhar grana boa? Monte um cursinho de matérias isoladas. Porque (ácido mode on) quem está disposto a fazer o filho preguiçoso passar de ano paga até um professor particular pro menino, ainda que o menino não queira nada com a vida (sim, existe uma demanda de “ricos preguiçosos”, se assim você quiser estereotipar). Sendo que o prof. de cursinho e o de escola muito provavelmente fazem o mesmo esforço na vida! Aliás, muitos dos meus profs. (estudei em escola particular) ensinavam também em escola pública e ainda tiravam um tempo pra uma matéria isolada e descolar uma grana a mais. Muito esforço, tiravam mais grana que outros colegas, mas ainda assim menos que um jogador de futebol de time grande. Por quê? Porque futebol tem mais demanda do povo, pra expressar sua paixão, e das empresas de patrocínio, pra expor sua marca! (mesmo assim, volta e meia tem time pequeno e de orçamento limitado ganhando partidas e até campeonatos grandes, em cima de times grandes e cheios de grana 😉 )

Já minha mãe foi professora de escola pública e amarga uma aposentadoria fraca do Governo do Estado… porque não fez esforço? Não! Porque não montou um cursinho de isoladas? Também não; montou e passaram a perna nela! Quebraram as regras do jogo! Ainda antes de ser profª, teve a chance de sair do país como engenheira, mas… vou dizer algo e vocês imaginam o problema: mulher negra sem apoio vivendo numa família tradicional (conservadora) dos anos 1970. Pronto, imaginem a repressão. Mais uma vez, houve esforço, mas não houve liberdade… sem respeito às regras da vida, ela foi reprimida. 😥

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Agora deixa eu bostejar um pouquinho, já que na internet um único parágrafo que o leitor discorda é digno de anular um texto inteiro: o povo que reclama de meritocracia (exceto os que reclamam por desconhecimento) costuma reclamar porque tem raiva de rico, de quem está “por cima”, e quer nivelar todos por baixo, tirando os privilégios de todo mundo, os méritos de todo mundo que faz acontecer corretamente, achando:
– que quem é pobre nunca conseguirá subir na vida e terá que depender eternamente de esmolas do Governo (que aliás diariamente tolhe os ganhos que o cidadão tem e assola qualquer chance dos mais desafortunados de crescerem na vida: o Estado é vilão e não um papai!);
que quem é negro deve continuar com discurso de vítima (e não se fazer forte e fazer os outros fortes pra que o preconceito não surta mais efeito — experiência própria!);
que mulher deve ter eterno medo de estupro (e não lutar pra que os criminosos sejam punidos e — principalmente — que ela possa ter direito de se defender);
que homem (ou melhor, omi) tem que ficar de bico calado, especialmente os brancos; que quem é rico é ladrão, etc.
Ah, e só pra constar: sou omi, negro, pobre e liberal (taxado de “coxinha”, sendo que liberalismo nem é de esquerda nem de direita). Para alguns, sou um paradoxo em mim mesmo, uma aberração meritocrática. Mas vocês e seus pontos de vista esquisitões é que são aberrações; ainda assim, com todas essas falhas, enquanto eu viver eu vou defender com todas as minhas forças o direito de vocês se manifestarem independente do que digam.

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Voltando ao foco: deu pra sacar? Meritocracia é uma coisa normal da vida. Existe um objetivo, uma demanda, uma lacuna, e um conjunto de regras bem definidas e conhecidas; o objetivo é alcançado dentro das regras, a demanda é atendida e suprida, a lacuna é preenchida com sucesso; nenhuma regra é quebrada, e quem alcançou o feito recebe o mérito. Seja com muito ou pouco esforço. Qual a dificuldade disso?

“Numa família, a meritocracia deve ser estimulada, porque essa é a realidade fora de casa. Nenhum profissional consegue vencer uma concorrência fazendo birra ou gritando. Portanto, pais que mantêm privilégio de um filho que não merece estão na contramão da educação saudável. Premiar quem não merece desmerece quem tem mérito!
– Içami Tiba, “Família de alta performance”.

Até a próxima.

 

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