Eu nunca tive muito a ver com ela…

Eu não lembro bem o dia que troquei alguma palavra com ela. Na verdade, não sei nem quando a vi pela primeira vez. Deve ter sido perto das férias de meio de ano, entre eventos, aulas enfadonhas e provas estressantes. Como eu nunca fui de muitos amigos, nem muito observador, e ela não era de minha turma, levou esse tempo mesmo. O que lembro exatamente foi um dia fazendo um som com um mano meu. Cara, eu toco violão bem mais ou menos, esse meu mano toca bem, mas talvez pelo alinhamento das estrelas ou por interferência dos aviões que passavam eu toquei até bem e ele nem deu show. Claro que juntou gente, sempre junta gente, os mano zoeiro, as maria-palheta da vida, os fãs de música boa, e os curiosos de sempre. E ela tava lá no meio das amigas e amigos. Toquei tentando não olhar pro lado dela, pra não dar bandeira, mas confesso que bateu aquele ciuminho instantâneo, pois tinha mais amigo que amiga perto dela…

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Ela nem fez nada.
Ela apenas se destacou no meio da galera…

Uma besteira né? Até parece que impressionar a garota com uma ou outra música interessa. Na real, se uma garota cair por mim porque toquei ou cantei algo, ou mandei um varial heelflip qualquer na pista ou um windmill no encerado, eu quero distância dela pra coisas mais sérias, até ela criar juízo e ver que a vida vai além de aparência. Se bem que quem me conhece e é realmente amigo não só ignora minha aparência mulambenta, como também descobre o cara casca grossa que sou, ou acho que sou. Esses eu respeito, conseguem encarar a fera de frente. Mas, eu não sei… ela, eu bati o olho e ela nem me viu de cara (ainda bem), mas eu fui fisgado. Ela nem fez nada. Ela apenas se destacou no meio da galera e eu acho que poderia encontrá-la facilmente no centro da cidade se eu subisse numa marquise pra olhar a multidão.

Droga. Tô lascado.

Outro dia eu a vi no refeitório conversando, cheguei pra almoçar, botei um fone de ouvido *desligado* e sentei na mesa do lado, olhando só pro prato, mas com o ouvido atento. Ela falava das séries e filmes, as amigas babando nos protagonistas bonitões, fortões, inteligentes, corajosos. Os livros, as histórias tão interessantes. Tão perfeitinhas. Eu nunca tinha lido aqueles livros, eu nunca quis ver aqueles filmes, nem acompanhei nenhuma daquelas séries.

Cara, eu me sinto um babaca. Quero dizer, não tenho nada a ver com essa garota. Que é que eu tô pensando? Sou mais o grafite, o break, o rock ‘n roll e o skate. Ela curtindo o popzinho dela. O mundinho tão colorido, e eu no preto e branco, ela na salada com ricota e frango grelhado e eu no arroz com feijão e bife com macaxeira frita, ela no perfume e eu no cheiro de metrô. Porque eu duvido que consigo manter algum cheiro bom de perfume depois de 30min amassado no metrô.

Não sei cara. Devo ter cinco graus de miopia — até nos ouvidos, porque tudo que ela dizia pras amigas e eu entendia é que ela era meu completo oposto, e por mais que eu concordasse, eu teimava em não largá-la na minha mente. Eu não tenho o MENOR motivo pra gostar dela. Parece que sou vítima de meu próprio conceito, que tenho que criar juízo porque gosto dela por ela ser bonita, e bem, a aparência dela é incrível. E as notas também. E as fotos na internet dela ajudando gente em ações sociais de ONGs. E o abraço na garotinha que tropeçou e deu de cara numa poça de água. Ela tirou o casaco dela e enxugou a criança. E o outro dia que eu a atropelei sem querer, correndo pra pegar o ônibus, e ela me pediu desculpa sem ter feito nada (e eu estúpido olhei pra trás sem dizer nada, depois me virei igual um robocop e fui embora).

Mas sabe como dizem: os opostos se atraem. Ou pra ser mais escrachado (como gosto de ser): aonde a vaca vai, o boi vai atrás.

Parece que o tempo brincou comigo. As duas turmas se juntaram pra uma apresentação de teatro no fim do ano e uma parte era dança — tango. Porque me colocaram no tango eu não sei, já que sou bicho criado solto (danço break, minha praia é essa), e eu tinha outras preocupações: provas! Eu não estava ruim, mas não ia dar margem pra me lascar, né. Mas daí encanaram que eu ia pro tango porque eu tinha o gingado (ha ha). O pior foi que a instrutora de dança ensaiou uns passos comigo e eu acertei rápido demais. Ou seja, não bastasse ter que dançar o último tango em Paris (ou na Baixada), ia ser em posição de destaque, pra encobrir os que dançassem mais ou menos.

Adivinhem só quem foi a escolhida pra ser meu par? É.

Ô, diacho.

Não, pior: ela se candidatou. Não, pior ainda: eu fiquei nervoso. Eu nem sempre sou calmo, mas absolutamente nunca fiquei preocupado por algo relacionado a alguma garota. Eu nem penso nela todos os dias. Eu nem fico pensando uma forma de chegar nela, de puxar algum assunto longo a dois, que não seja um papo raso e inútil nem um papo nerdão e enfadonho. Eu nem fico imaginando se a gente deixasse de ser conhecidos, colegas e pessoa legal um com o outro, pra dar um passo adiante e engatar a segunda marcha, e eu ia ser o melhor cara do mundo pra ela.

Tá bom, ok, eu confesso. Eu penso. Ah, mas que droga, viu. Orra, mano! Não se encaixa! Não é pro meu bico. Tem muito cara melhor pra ela. Ao mesmo tempo que eu me toco e vejo que minha realidade e meus hobbies são outros, ela me atrai demais, e sem saber (eu acho). E é muito fácil dizer “cai pra dentro, tenta, se dê uma chance”, minhas cantadas ridículas (que só são zoeira) e meu jeito tosco de ser provavelmente só são repulsa. E por menos observador que eu seja, parece que eu dobro uma esquina e ela tá lá. Entro no ônibus e ela tá passeando lá fora. Vou dar um rolê na pista de skate e ela tá tocando aqueles ukulele bem hipster e cantando musiquinhas mais hipster ainda com a turma dela. E eu, todo bestão, achando que pode ser que dê certo.

Ah, o tango? O teatro todo aplaudiu, mas eu achei que foi uma merda. Ela adorou, disse que queria conversar comigo depois (eu tremi). Eu tenho certeza que errei uns 8 passos, ela corrigiu na marra sem tirar os olhos dos meus e eu não sei como não parei e fiquei só olhando pra ela e sentindo o perfume, tocando a pele macia dela.

Ah, pô. Ó aí, tá vendo? Eu todo derretidinho. Que saco. Nunca fui assim. Isso não é meu jeito de ser. Eu nem sei fazer poesia e parece que todo dia brota uns versos bonitinhos na cabeça, sem eu mesmo querer. Não sou chique, não uso sapatinho social, penteadinho de mauricinho, camisa de botão. Deu vontade de terminar o tango, tomar um banho, tirar aquela roupa ridícula e correr pra orla da praia, andar de skate, ouvir um som e olhar o mar. Só não fiz isso porque tava um pouco tarde e a praia era longe do teatro, mas vontade não faltou. Dei sorte: ela queria conversar comigo, mas precisou ir embora logo, e eu, medroso, nem fiz questão de nada. Acabei indo pra casa, brincar com o violão, quis tocar uns punk rock, mas na real meus dedos dedilhavam, no automático, aqueles temas de rádio, que os casais cantam uns pros outros (argh).

Agora são férias de fim de ano, a galera marcou uma viagem pra outra praia, mais distante, e muita gente foi. Inventei uma desculpa e todo mundo fez birra pra eu ir (porque ela ia), mas aceitaram porque sabem que eu sou doidão, mas sou na minha. Tenho meu jeito de ser, e parece que respeitam isso. Agora eu fico pensando se lá ela não tá com outro cara, beijando, brincando no mar, cantando abraçadinha com ele, contando estrela. E novamente eu fico preocupado sem ter motivo, porque ela não é pra mim, eu não quero pensar nisso mas acabo pensando. Nem fui olhar as fotos da turma na internet, não quero me estressar com isso.&

Mas outro dia, durante essa viagem da turma, sonhei com ela, nada especial, ela apenas tava lá nas visões. Talvez seja uma dessas “mensagens” que indicasse que ela tá por perto, talvez seja paranoia minha (acho que é noia mesmo), então desencanei e fui tomar um banho de mar pra lavar a alma e me despreocupar. Sei que quando voltarem eles vão marcar algo, pra se reverem e ficarem contando as besteiras da viagem, e se eu for eu vou pra comer o churras, fazer um som e passar o tempo. Como eu disse, sou de poucos amigos, mas alguns ali são mesmo meus amigos, e eu curto ficar perto deles.

***

Como eu previa, marcaram um churras. Cheguei até cedo, não tinha trânsito. A casa era de um dos manos. A cozinha era pequena e tinha muita gente ainda preparando a comida, eu sou um asno na cozinha e se eu ficasse ali conversando só ia atrapalhar a passagem. Então me disseram pra ir pra sala, a TV tava ligada, peguei um suco e fiquei lá de boa. A sala era um pouco afastada da cozinha, nem dava pra ouvir o barulho da turma, nem mesmo ver o corredor. Da janela, a rua tava tranquila.

Nem tava pensando em nada. A TV passava um desses programas de auditório. Poderia passar um minuto ou uma hora que eu nem perceberia, eu tava desligado. Daí ela vem e senta do meu lado no sofá. Me disse um “oi” com voz terna e olhar cativante. Não sei (ou sei) por que diabos tive isso, mas senti um arrepio na espinha. O tempo parou ali pra mim.

E o resto é história…

~~~~~~

( Originalmente postado no Dialetos & Coisas Boas — acho que nunca escrevi uma história tão boa quanto essa.)

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